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Fernando Perlatto*

Neste ano o PT completará 29 anos de existência, entrando para o rol das instituições balzaquianas. A comemoração dos 30 anos em 2010 coincidirá com as eleições nacionais, que colocarão à prova se o que temos hoje é um projeto vitorioso de transformação da sociedade ou um presidente que logra obter apoio nunca antes visto em decorrência dos seus atributos pessoais e da sua capacidade de se equilibrar acima de todos os conflitos que pairam em nossa sociedade. Ainda que acredite na primeira hipótese, embora não descarte as influências da segunda, fato é que chegar a esta idade madura, na condição de partido do presidente da República e, principalmente, na situação de maior partido de esquerda do Brasil, nos obriga a fazer a seguinte pergunta: e agora PT? Qual é o seu destino? O que você quer para si e para esta sociedade ainda tão desigual e marcada por todos os tipos de opressão que te acolheu durante todo este tempo? O patrimônio imaterial adquirido nestes 29 anos de história, em decorrência da luta, lágrima, suor e sangue de milhares de mulheres e homens por uma sociedade igualitária e radicalmente democrática não pode e não deve ser desperdiçado nas próximas primaveras, mas pelo contrário, deve ser aprofundado cada ano mais. Mas, como fazê-lo? Desde já é importante ressaltar que as reflexões contidas neste ensaio não devem ser tomadas como “fogo-amigo”, capaz de fornecer “munições” aos adversários, como muitos companheiros e companheiras foram acusadas, sobretudo dentro dos movimentos sociais, no decorrer dos sete anos do Governo Lula, quando fizeram críticas à condução da “máquina”, fossem elas plausíveis ou não. O exercício da crítica e da autocrítica deve sempre ser valorizado, sobretudo em uma organização que se pretenda exemplar do ponto de vista democrático. Não pretendo aqui fazer louvores ao governo Lula, comparando-o com os oito anos do tucanato. Esta comparação é feita em todos os momentos, em todas as áreas, em todos os setores, seja através da análise fria dos dados, seja através da discussão frente à própria concepção de sociedade. Isso é assunto pronto e acabado: o Governo Lula é muito superior ao de FHC e a sociedade tem plena consciência disto, o que justifica a enorme aprovação do governo e do presidente. Portanto, reitera-se que o objetivo aqui é suscitar reflexões que possam contribuir para o debate interno sobre o futuro, sobre o que nós, petistas, somos hoje, sobre o que o Brasil é hoje e o que queremos que nós sejamos e o Brasil seja amanhã. É apenas disso que se trata... Se há o diagnóstico de que estes sete anos foram marcados por avanços importantes e se há a avaliação de que é necessário que o projeto continue, necessitamos pensar no que representa o Governo Lula para o país, mas principalmente no que queremos para o país. Se mudamos o foco para responder ao que, de fato, queremos e não ao que temos, nossa análise também tem que mudar e necessita ser mais arrojada e utópica, mesmo que a capacidade de sonhar venha se degringolando nos últimos anos, inclusive no interior do nosso partido. Nesse sentido, se o foco é pensar no que queremos, devemos nos esforçar para traçar estratégias de modo que o PT, até então partido dominante da coalizão governamental, se torne o pólo hegemônico da mesma, o que é muito diferente e mais complexo, na medida em que implica na possibilidade de dirigir política e ideologicamente a sociedade, coisa que até o presente momento não conseguimos fazer, na medida em que, a despeito das transformações ocorridas, continuamos a viver em um dos países mais conservadores e desiguais do planeta. No decorrer do segundo mandato de Lula, o PT, através da alocação de quadros importantes em alguns ministérios estratégicos, conseguiu estabelecer uma agenda capaz de contribuir para a alteração da hegemonia na sociedade, sobretudo através de programas como o PAC, o PDE e o PRONASCI. Quis o destino que a crise econômica estourasse mais rápido do que imaginávamos e comprovasse um diagnóstico que a esquerda, outrora taxada de louca, já realizava: o mercado, solto por si só, não resolve os problemas da sociedade, mas pelo contrário, os aprofunda. Nesse sentido, aquela agenda impressa no segundo mandato ancorada no fortalecimento do Estado, embora travada pela manutenção de uma política econômica ortodoxa, através da descomunal taxa de juros e do enorme déficit primário, mostrou-se correta e superiora à agenda neoliberal, colocando a faca e o queijo na nossa mão para imprimirmos um novo ritmo de mudanças na sociedade e na disputa da hegemonia no seu interior. Porém fica a pergunta: estamos no caminho certo? É este, realmente, o programa que o PT quer para a sociedade? Damos-nos por satisfeitos por sermos keynesianos e garantirmos o fortalecimento de um Estado capaz de estabelecer um modelo de Bem-Estar Social mínimo e intermediar os conflitos entre as classes, como o faz o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social? A nossa pauta se resume à concertação e ao estabelecimento do diálogo entre as classes sociais, capaz de garantir um desenvolvimentismo superior ao neoliberalismo? Procurando formular a pergunta em outros termos: nós, petistas, somos nacional-desenvolvimentistas ou somos socialistas? As perguntas acima realizadas não pretendem, caso sejam lidas em suas últimas conseqüências, conduzir à questão: somos reformistas ou revolucionários? Não é este o sentido das mesmas, ainda que esta pergunta devesse ser fixada na parede do quarto de nossas lideranças, para que todos os dias ao acordarem, pensassem sobre ela. A reflexão que se pretende suscitar aqui é a de que não é possível nos contentarmos em sermos melhores do que os tucanos e não é possível que nos acomodemos em sermos apenas um partido que deseja melhorar as condições do capitalismo. Se não, por que nos rotularmos de socialistas? As transformações que colocaram o governo petista no campo nacional-desenvolvimentista têm sido de fundamental importância, sobretudo no sentido de superar os estragos provocados pela avalanche neoliberal. É necessário pensar onde queremos chegar para que estas reformas não se encerrem em um projeto nacional-desenvolvimentista, que, ao menos ao meu juízo, não corresponde ao programa político máximo do Partido dos Trabalhadores. Estas reflexões são no sentido de apontar para a necessidade de debates que apontem para frente e não apenas para a comparação com o que ocorreu, se não ficaremos presas da realidade e não teremos espaço para sonhar. A questão de fundo que perpassa este texto é a seguinte: o que nós, petistas, queremos em um próximo governo? Com que agenda política faremos a disputa com a direita no ano que vem? Devemos ser claros neste sentido, sob o risco de sermos tomados como apenas uma agulha neste palheiro governamental, quando, na verdade, pela força que temos na sociedade, deveríamos ser a pá que sacode esta palha para cima. Deixo aqui registrado que, no que tange ao campo das reformas necessárias para avançar em direção à disputa hegemônica por uma sociedade radicalmente diferente da que aí está, é imperativo que um próximo governo petista, somada às mudanças na política econômica, realize a reforma política – que além do estabelecimento do financiamento público de campanhas e da fidelidade partidária, regulamente os mecanismos de participação popular, já previstos na Constituição de 1988 –, a reforma tributária – através da tributação dos mais ricos, de modo a produzir um fundo público socialmente justo – e uma reforma capaz de democratizar os meios de comunicação, atualmente monopolizados por restritos setores da sociedade. Porém, isso ainda é pouco diante da sociedade socialista que queremos construir. Por mais importante e avançada que seja a agenda do fortalecimento do Estado e do nacional-desenvolvimentismo, ela não dá conta de oferecer o caminho possível para a sociedade que queremos. Para que isso seja possível, é necessário o fortalecimento da sociedade civil, através de mecanismos que sejam capazes de socializar a política e politizar a sociedade. Não é nosso objetivo aqui oferecer a resposta de como isso se dará e nem temos esta pretensão. Apenas desejamos jogar a semente desta discussão, para que ela se torne permanente entre a militância do PT e demais setores progressistas da sociedade brasileira. O desafio agora é caminharmos no sentido de fazer com que o PT se torne hegemônico no governo e na sociedade, de modo a abrir os caminhos necessários para que as transformações profundas que desejamos sejam, de fato, efetivadas. No fundo, este artigo teve apenas o objetivo de estimular o seguinte chamamento: ao comemorar estes 29 anos, vamos, todos juntos, sonhar?

* Mestrando do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ) e membro do Diretório Municipal do PT – Juiz de Fora.